terça-feira, setembro 06, 2005

Morrer virgem

Nem todas as putas têm sentimentos. Só algumas, e eu não sou dessas. Tive muitas colegas sentimentalóides, e por isso más profissionais, que lamentaram tarde demais misturar affairs du coeur com o quotidiano da trancada for sale. Lembro-me por exemplo da Paulina, que se deixou apaixonar por um empresário do Norte ligado à indústria do sabão. Quando a fábrica do tipo faliu, a Paulina apanhou por tabela. Foi parar às urgências de São José, e voltou para casa com um dedo defeituoso mais um olho vazio. Nunca apresentou queixa e ganhou a alcunha de Zarolha. Continua a exercer, mas agora para uma clientela seleccionada com apetites por pratos exóticos, como o mítico broche feito enquanto se canta ópera. A garganta da Paulina é tão pouco dada a interpretações de Puccinni como a fazer trombadas com o auxílio da glote, mas, diz quem experimentou, aquelas pestanas a resvalar na piça de um homem fizeram da Avenida da Liberdade (o pouso da Zarolha) paragem obrigatória para os apreciadores da bela-mamada. Neste caso, feita a olho.
Aprendi cedo a importância de não me afeiçoar aos meus clientes. Nem a respeitá-los. Respeitar um cliente é ainda mais perigoso para uma puta. Corre-se o risco de tanto respeito tirar a vontade, e a foda sai-nos pior. O cliente fica insatisfeito e não volta. Às vezes há uns que até convém não voltarem, e eu, a esses, sempre tratei com todo o respeito. Putas caloiras que me estão a ler: querem livrar-se daquele cliente que vos obriga sempre a ir com ele a três ou quatro caixas multibanco diferentes, até achar uma que lhe permita levantar dinheiro suficiente para pagar o serviço? Nada mais simples. Da próxima vez (que, vos garanto, será a última), despeçam-se dele com um aperto de mão e mandem cumprimentos à esposa. Atenção: não façam isto a nenhum putanheiro batido; esse vai ficar com tanta tesão provocada pelo vosso atrevimento que vai querer dar-vos outra logo a seguir. E não se esqueçam da regra de ouro das putas: duas fodas seguidas com o mesmo gajo é coisa próxima do casamento, e uma puta não se quer casada (compreende-se, não seria bom para ninguém).
A minha prova de fogo deu-se na década de 80, eram umas 3 e meia da manhã. Não me lembro do mês, nem do dia, mas lembro-me das auto-estradas de coca que o meu cliente tinha asfaltado pelas minhas coxas acima, auto-estradas que, dizia ele, desembocavam no paraíso do meu entrepernas. E quando ele dizia desembocavam, era a expressão correcta. Nunca vi tipo com mais queda para o minete.
Saímos da pensão ranhosa ali para os lados do Cais do Sodré e descemos as escadas de madeira, que chiavam mais que eu quando fingia que me estava a vir. Uma vez na calçada cada um seguiu o seu caminho sem dizer adeus. Este era um cliente a manter. Até aí eu já sabia. Mas nenhuma canzana acolhida por mim de forma desapaixonada, enquanto lia uma entrevista à Ana Zanatti na TVGuia, me podia ter dado o estofo que os acontecimentos seguintes me proporcionaram.
Vinha a pensar no quanto podia aprender com o chiar das escadas de madeira (naquela noite estava com particular apetência para aprender; calhou bem), quando ouvi outra chiadeira, esta capaz de fazer inveja até à Lenita, puta de Leiria que até hoje melhor simula um orgasmo daqueles valentes. Demorei alguns instantes para perceber que eram pneus no asfalto, e depois ouvi o som de uma batida. O carro meteu a primeira e arrancou rua acima. Ainda tive oportunidade de ver que era um BMW, agora com o farolim da esquerda partido, e pensei para comigo que o dono daquela viatura é que dava um bom cliente. Corri para a esquina e dei com o que já estava à espera.
O tipo não devia ter ainda quarenta anos, e estava bastante mal-tratado. Mas nem todo aquele aspecto lastimável se devia ao atropelamento. À primeira vista percebia-se logo que nunca tivera carranca para a qual se olhasse duas vezes. O típico frequentador de putas. Pediu-me ajuda, mas eu dei-me ao respeito. O respeito que ele nunca teria de mim, porque eu já na altura era uma profissional de corpo inteiro. Disse-lhe que não podia tocar-lhe com um dedo sequer sem um acordo prévio de pagamento, mesmo que fosse para estancar a hemorragia. Chamar uma ambulância estava também fora de questão: as únicas chamadas que eu fazia eram para Tóquio, e qualquer viatura de socorro que viesse agora do Japão nunca chegaria a tempo de salvá-lo. Quando percebeu que eu era puta, riu-se e mostrou os três dentes que lhe sobraram depois do BMW lhe passar por cima. Disse-me que não tinha medo de morrer, mas custava-lhe ir-se ainda virgem. Pensara muitas vezes em recorrer a putas, só que a vergonha travara-lhe a estreia. Agora a vergonha fora-se, junto com os dentes.
Tinha dinheiro na carteira e insistiu em contratar-me. Nada complicado, bastava-lhe uma mamada simples, sem os requintes da Zarolha da Avenida da Liberdade. A rua estava deserta, a carteira do potencial cliente recheada, e eu desapertei-lhe a braguilha. Foi coisa rápida, e tive uma gorjeta como só três anos mais tarde viria a receber igual, depois de um serviço em Cascais com uma equipa de canoagem.
Quando voltei costas e me vim embora, sem despedidas, o moribundo agradecia a Deus. Depois calou-se e tenho a certeza que finou com um sorriso.

8 Comments:

At 8:12 da tarde, Anonymous Master Minder said...

Ok. Continua bem. Continua assim e num dos próximos dias faço um link para o teu blog. Se me permites. E se não me permites, enfim, também. Bem vistas as coisas, porque diabo é que haverias de não permitir? Além do mais, eu faço essas coisas de borla. Perspectivas... ;)

 
At 11:13 da manhã, Blogger Ruka0808 said...

Aqui está um blog que se o trabalhares bem pode vir a ser muito interessante, desde já os meus parabéns pela tua coragem...

 
At 1:00 da tarde, Blogger Wonderm00n said...

Excelente!

Vou seguir!

Já está um link em http://wonderm00n.blogspot.com

 
At 3:24 da tarde, Anonymous Master Minder said...

Bom, ok. Confiando que vais conseguir manter-te original, não repetitiva(o), vou-te adicionar aos links do meu blog.

 
At 7:37 da tarde, Anonymous Maria Alice said...

Sou quem sabes, Maria Alice...

 
At 9:18 da tarde, Blogger Master Minder said...

Hello, Maria. Bom ver-te por aqui. Beijocas.

 
At 10:02 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Ó Zezinha, afinal onde é que está o resto? Percebo a importância de se tratar dos clientes, mas nós, apesar de não pagarmos, também cá estamos... E trabalho a mais não é saudável.

 
At 7:48 da tarde, Anonymous Maria Alice said...

Ó Zézinha: a produzir assim, recuperas a virgindade com as teias de aranha que vão entupindo o teu ganha-pão...

 

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