terça-feira, setembro 13, 2005

Marcado a fogo e calcado

Se não me tenho sentado a escrever foi porque na semana passada, noite do concerto da Mariza em Belém, servi três pratos a um senhor da Covilhã. Na altura, o dito senhor, que se dizia divorciado, mas, pela força com que me abalroou a traseira, era de certeza casado, porque só os casados fodem tão pouco ao ponto de, quando encontram rabo aberto, lho espetarem com o vigor que ele o fez, esse senhor, dizia eu, abordou-me enquanto a Mariza cantava "A Toada do Desengano". Eu estava a gostar do concerto, a rapariga sente mesmo aquilo que canta, sente tanto quanto, durante estes últimos dias, eu senti o rabo assado de tanta fuçanguice com que o senhor da Covilhã me deu por trás. Fiz-me careira, a ver se ele retomava atenção à cantoria, mas foi escusado: disse que pagava o que eu lhe pedia, e algo mais se a foda fosse dada ao ar livre, para não perder a actuação da Mariza, de quem jurava gostar muito. E se rápido o disse, mais rápido o fez, porque nem um minuto depois já tinha o dinheiro na bolsa e a piça do senhor da Covilhã atravessada entre as pernas.
A foda, enquanto eu servia o primeiro prato, foi coisa de que guardo pouca memória. Sei que quando me baixei para lhe abocanhar a piça reparei que, àquela altura do chão, rodeada de pessoas por todos os lados, o som que vinha do palco chegava-me abafado aos ouvidos. Mas este efeito acústico também pode ter sido provocado pelo inchaço que a piça do senhor da Covilhã apresentava. Inchaço tal que serviu para reforçar a minha ideia de que o senhor não tinha vindo da Covilhã por ser grande fã da Mariza, mas sim porque precisava de aliviar os testículos de certo peso que, por mais de uma vez, tomei na mão.
O segundo prato, esse, já foi coisa de grande monta. Literalmente, porque o senhor da Covilhã montou-me sem regra nem pudor, alheio aos olhares das várias famílias que agora prestavam mais atenção à foda que se desenrolava ali ao lado do que propriamente à fadista. Alguns pais de família taparam os olhos às crianças, outros taparam os olhos às mulheres e, sem despegar olho de mim, levaram as mãos às braguilhas. Não digo que estivesse tudo a olhar para nós, mas grande parte. Tive de chamar a atenção ao senhor da Covilhã. Disse-lhe que se me queria espetá-lo com público a assistir, tinha de pagar mais um extra, porque não sou a Mariza mas sou artista no que faço, e se a Mariza quer actuar de borla para o grande público, o problema é dela. Eu é que não vou nessa cantiga.
O senhor da Covilhã nem pestanejou, ou se o fez eu não vi, por causa da luz do palco. A única coisa que sei é que, apesar de estar com as calças pelos tornozelos, levou a mão ao bolso e tirou a carteira com tanta destreza que até parecia que a tinha no bolso do casaco. Mas não, porque se assim fosse já tinha perdido todo o dinheiro e documentos; é que o senhor da Covilhã tinha atirado o casaco para cima da multidão, e agora alguém, talvez convencido que a Mariza tinha atirado um xaile de cima do palco, se divertia a rodá-lo pelo ar enquanto gritava "Ah, fadista!". Como já me começava a doer, fingi que as palavras de incentivo eram dirigidas a mim.
Mas se por esta altura me fazia doer, então quando o senhor da Covilhã resolveu começar a tratar-me das nalgas foi o descalabro. Era tal o inchaço que apresentava na piça que até vi estrelas, não apenas uma, a Mariza, que essa eu já nem a via. E as estrelas cantavam-me aos ouvidos: "depois desta não te vais conseguir sentar durante mais de uma semana". E estavam certas.
Quando acabou o serviço, o senhor da Covilhã desapareceu por entre a multidão, sem sequer puxar as calças para cima. Devia querer voltar para a mulher que não tinha na Covilhã, e estava com medo de apanhar bicha à uma da manhã. O pai de família que uns minutos mais cedo tinha tapado os olhos à mulher também parecia ter acabado o serviço, porque outro pai de família que estava à frente dele preparava-se agora para lhe dar um soco por causa de qualquer coisa que o primeiro lhe tinha entornado nas calças. Não me fiz rogada e, antes que ele levasse o soco, ainda lhe fui pedir contas.
Os meus tímpanos ainda desentupiram a tempo de ouvir a Mariza cantar: Este amor, este meu fado/Tão vivido e magoado/Entre o sim e o todavia/Este amor amor desgovernado/Marcado a ferro e calcado. E era assim que sentia o rabo, marcado a ferro e calcado.
Quando a Mariza acabou, eu aplaudi muito. Depois saí dali, decidida a passar a próxima semana com o rabo mergulhado em Betadine, e jurei a mim mesma nunca mais ir a uma noite de fados.

terça-feira, setembro 06, 2005

Morrer virgem

Nem todas as putas têm sentimentos. Só algumas, e eu não sou dessas. Tive muitas colegas sentimentalóides, e por isso más profissionais, que lamentaram tarde demais misturar affairs du coeur com o quotidiano da trancada for sale. Lembro-me por exemplo da Paulina, que se deixou apaixonar por um empresário do Norte ligado à indústria do sabão. Quando a fábrica do tipo faliu, a Paulina apanhou por tabela. Foi parar às urgências de São José, e voltou para casa com um dedo defeituoso mais um olho vazio. Nunca apresentou queixa e ganhou a alcunha de Zarolha. Continua a exercer, mas agora para uma clientela seleccionada com apetites por pratos exóticos, como o mítico broche feito enquanto se canta ópera. A garganta da Paulina é tão pouco dada a interpretações de Puccinni como a fazer trombadas com o auxílio da glote, mas, diz quem experimentou, aquelas pestanas a resvalar na piça de um homem fizeram da Avenida da Liberdade (o pouso da Zarolha) paragem obrigatória para os apreciadores da bela-mamada. Neste caso, feita a olho.
Aprendi cedo a importância de não me afeiçoar aos meus clientes. Nem a respeitá-los. Respeitar um cliente é ainda mais perigoso para uma puta. Corre-se o risco de tanto respeito tirar a vontade, e a foda sai-nos pior. O cliente fica insatisfeito e não volta. Às vezes há uns que até convém não voltarem, e eu, a esses, sempre tratei com todo o respeito. Putas caloiras que me estão a ler: querem livrar-se daquele cliente que vos obriga sempre a ir com ele a três ou quatro caixas multibanco diferentes, até achar uma que lhe permita levantar dinheiro suficiente para pagar o serviço? Nada mais simples. Da próxima vez (que, vos garanto, será a última), despeçam-se dele com um aperto de mão e mandem cumprimentos à esposa. Atenção: não façam isto a nenhum putanheiro batido; esse vai ficar com tanta tesão provocada pelo vosso atrevimento que vai querer dar-vos outra logo a seguir. E não se esqueçam da regra de ouro das putas: duas fodas seguidas com o mesmo gajo é coisa próxima do casamento, e uma puta não se quer casada (compreende-se, não seria bom para ninguém).
A minha prova de fogo deu-se na década de 80, eram umas 3 e meia da manhã. Não me lembro do mês, nem do dia, mas lembro-me das auto-estradas de coca que o meu cliente tinha asfaltado pelas minhas coxas acima, auto-estradas que, dizia ele, desembocavam no paraíso do meu entrepernas. E quando ele dizia desembocavam, era a expressão correcta. Nunca vi tipo com mais queda para o minete.
Saímos da pensão ranhosa ali para os lados do Cais do Sodré e descemos as escadas de madeira, que chiavam mais que eu quando fingia que me estava a vir. Uma vez na calçada cada um seguiu o seu caminho sem dizer adeus. Este era um cliente a manter. Até aí eu já sabia. Mas nenhuma canzana acolhida por mim de forma desapaixonada, enquanto lia uma entrevista à Ana Zanatti na TVGuia, me podia ter dado o estofo que os acontecimentos seguintes me proporcionaram.
Vinha a pensar no quanto podia aprender com o chiar das escadas de madeira (naquela noite estava com particular apetência para aprender; calhou bem), quando ouvi outra chiadeira, esta capaz de fazer inveja até à Lenita, puta de Leiria que até hoje melhor simula um orgasmo daqueles valentes. Demorei alguns instantes para perceber que eram pneus no asfalto, e depois ouvi o som de uma batida. O carro meteu a primeira e arrancou rua acima. Ainda tive oportunidade de ver que era um BMW, agora com o farolim da esquerda partido, e pensei para comigo que o dono daquela viatura é que dava um bom cliente. Corri para a esquina e dei com o que já estava à espera.
O tipo não devia ter ainda quarenta anos, e estava bastante mal-tratado. Mas nem todo aquele aspecto lastimável se devia ao atropelamento. À primeira vista percebia-se logo que nunca tivera carranca para a qual se olhasse duas vezes. O típico frequentador de putas. Pediu-me ajuda, mas eu dei-me ao respeito. O respeito que ele nunca teria de mim, porque eu já na altura era uma profissional de corpo inteiro. Disse-lhe que não podia tocar-lhe com um dedo sequer sem um acordo prévio de pagamento, mesmo que fosse para estancar a hemorragia. Chamar uma ambulância estava também fora de questão: as únicas chamadas que eu fazia eram para Tóquio, e qualquer viatura de socorro que viesse agora do Japão nunca chegaria a tempo de salvá-lo. Quando percebeu que eu era puta, riu-se e mostrou os três dentes que lhe sobraram depois do BMW lhe passar por cima. Disse-me que não tinha medo de morrer, mas custava-lhe ir-se ainda virgem. Pensara muitas vezes em recorrer a putas, só que a vergonha travara-lhe a estreia. Agora a vergonha fora-se, junto com os dentes.
Tinha dinheiro na carteira e insistiu em contratar-me. Nada complicado, bastava-lhe uma mamada simples, sem os requintes da Zarolha da Avenida da Liberdade. A rua estava deserta, a carteira do potencial cliente recheada, e eu desapertei-lhe a braguilha. Foi coisa rápida, e tive uma gorjeta como só três anos mais tarde viria a receber igual, depois de um serviço em Cascais com uma equipa de canoagem.
Quando voltei costas e me vim embora, sem despedidas, o moribundo agradecia a Deus. Depois calou-se e tenho a certeza que finou com um sorriso.

Chamem-me puta

Uma nota sobre o porquê de usar o termo puta, e não prostituta. Prostituta é uma palavra com muitas sílabas. Não serve para exprimir a verdadeira importância deste ofício. Às coisas verdadeiramente importantes na vida de alguém dão-se nomes com duas sílabas: papá; mamã; filha; filho; piça; rabo (prefiro dizer rabo a cu, exactamente porque rabo tem duas sílabas); cona; mamas; foda. E, claro está, puta. Chamar prostituta a uma puta é inferiorizá-la, negar-lhe o merecido lugar de destaque no panteão das nossas memórias mais estimadas. Porque tem tanto valor a recordação da primeira vez que o nosso papá e a nossa mamã nos levaram ao Jardim Zoológico, como a da primeira vez que uma puta nos fez vir numa pensão de terceira categoria perto do Instituto Superior Técnico. Acreditem em mim, que só falo do que sei. Posso não fazer ideia do que é o sorriso de uma criança quando vê pela primeira vez o elefante a tocar o sino com a tromba, mas conheço bem as lágrimas de alegria vertidas por muitos rapazes, que me escolheram para celebrar a noite em que completavam 18 primaveras, enquanto eu lhes fazia a primeira trombada. Ao longo de quase uma década nesta vida fui mamã para milhares de homens que queriam levar tau-tau no rabo com um pingalim porque não tinham comido a papa toda; fui papá para centenas de lésbicas reprimidas que só consegui tirar do armário depois de me vestir à técnico da NetCabo (coisa que também tive de fazer por muitos homens) e colocar um bigode falso (o qual elas acabavam invariavelmente por encontrar na manhã seguinte dentro das cuecas, e eles dentro do rabo); e dei cona, rabo e boca a todos quantos os quiseram preencher, às vezes com aparelhos a pilhas. Se há alguém que sabe o que custa fazer feliz uma pessoa, são as putas. A felicidade depende de boca na piça e piça na cona? 200 euros. A felicidade depende de boca na piça, piça na cona, e piça no cu? 250 euros. A felicidade depende de boca na piça, piça na cona, piça no cu, e outra vez boca na piça? É felicidade a mais. Vamos discutir o preço.
O valor da felicidade é a tabela de preços de uma puta. E o preço da felicidade não se discute. Nascer é de graça, porque quando se nasce não se escolhe o papá nem a mamã, mas quando se vai às putas há que pagar, porque se tem a oportunidade de escolher a puta da boca em que se quer pôr a piça (no caso dos homens), ou a puta da cona em que se quer roçar a rata (no caso das mulheres), ou a puta do dildo que se quer meter no rabo (também faço bichas; tenho clientes que vão aparecer naquele programa novo da SIC, o Esquadrão qualquer-coisa). Portanto, não me ofendam. Nunca me chamem prostituta, meretriz, ou alternadeira.
O que eu sou é puta. E puta de cabeça erguida, a não ser que esteja a fazer um broche daqueles bem aviados.