Se não me tenho sentado a escrever foi porque na semana passada, noite do concerto da Mariza em Belém, servi três pratos a um senhor da Covilhã. Na altura, o dito senhor, que se dizia divorciado, mas, pela força com que me abalroou a traseira, era de certeza casado, porque só os casados fodem tão pouco ao ponto de, quando encontram rabo aberto, lho espetarem com o vigor que ele o fez, esse senhor, dizia eu, abordou-me enquanto a Mariza cantava "A Toada do Desengano". Eu estava a gostar do concerto, a rapariga sente mesmo aquilo que canta, sente tanto quanto, durante estes últimos dias, eu senti o rabo assado de tanta fuçanguice com que o senhor da Covilhã me deu por trás. Fiz-me careira, a ver se ele retomava atenção à cantoria, mas foi escusado: disse que pagava o que eu lhe pedia, e algo mais se a foda fosse dada ao ar livre, para não perder a actuação da Mariza, de quem jurava gostar muito. E se rápido o disse, mais rápido o fez, porque nem um minuto depois já tinha o dinheiro na bolsa e a piça do senhor da Covilhã atravessada entre as pernas.
A foda, enquanto eu servia o primeiro prato, foi coisa de que guardo pouca memória. Sei que quando me baixei para lhe abocanhar a piça reparei que, àquela altura do chão, rodeada de pessoas por todos os lados, o som que vinha do palco chegava-me abafado aos ouvidos. Mas este efeito acústico também pode ter sido provocado pelo inchaço que a piça do senhor da Covilhã apresentava. Inchaço tal que serviu para reforçar a minha ideia de que o senhor não tinha vindo da Covilhã por ser grande fã da Mariza, mas sim porque precisava de aliviar os testículos de certo peso que, por mais de uma vez, tomei na mão.
O segundo prato, esse, já foi coisa de grande monta. Literalmente, porque o senhor da Covilhã montou-me sem regra nem pudor, alheio aos olhares das várias famílias que agora prestavam mais atenção à foda que se desenrolava ali ao lado do que propriamente à fadista. Alguns pais de família taparam os olhos às crianças, outros taparam os olhos às mulheres e, sem despegar olho de mim, levaram as mãos às braguilhas. Não digo que estivesse tudo a olhar para nós, mas grande parte. Tive de chamar a atenção ao senhor da Covilhã. Disse-lhe que se me queria espetá-lo com público a assistir, tinha de pagar mais um extra, porque não sou a Mariza mas sou artista no que faço, e se a Mariza quer actuar de borla para o grande público, o problema é dela. Eu é que não vou nessa cantiga.
O senhor da Covilhã nem pestanejou, ou se o fez eu não vi, por causa da luz do palco. A única coisa que sei é que, apesar de estar com as calças pelos tornozelos, levou a mão ao bolso e tirou a carteira com tanta destreza que até parecia que a tinha no bolso do casaco. Mas não, porque se assim fosse já tinha perdido todo o dinheiro e documentos; é que o senhor da Covilhã tinha atirado o casaco para cima da multidão, e agora alguém, talvez convencido que a Mariza tinha atirado um xaile de cima do palco, se divertia a rodá-lo pelo ar enquanto gritava "Ah, fadista!". Como já me começava a doer, fingi que as palavras de incentivo eram dirigidas a mim.
Mas se por esta altura me fazia doer, então quando o senhor da Covilhã resolveu começar a tratar-me das nalgas foi o descalabro. Era tal o inchaço que apresentava na piça que até vi estrelas, não apenas uma, a Mariza, que essa eu já nem a via. E as estrelas cantavam-me aos ouvidos: "depois desta não te vais conseguir sentar durante mais de uma semana". E estavam certas.
Quando acabou o serviço, o senhor da Covilhã desapareceu por entre a multidão, sem sequer puxar as calças para cima. Devia querer voltar para a mulher que não tinha na Covilhã, e estava com medo de apanhar bicha à uma da manhã. O pai de família que uns minutos mais cedo tinha tapado os olhos à mulher também parecia ter acabado o serviço, porque outro pai de família que estava à frente dele preparava-se agora para lhe dar um soco por causa de qualquer coisa que o primeiro lhe tinha entornado nas calças. Não me fiz rogada e, antes que ele levasse o soco, ainda lhe fui pedir contas.
Os meus tímpanos ainda desentupiram a tempo de ouvir a Mariza cantar: Este amor, este meu fado/Tão vivido e magoado/Entre o sim e o todavia/Este amor amor desgovernado/Marcado a ferro e calcado. E era assim que sentia o rabo, marcado a ferro e calcado.
Quando a Mariza acabou, eu aplaudi muito. Depois saí dali, decidida a passar a próxima semana com o rabo mergulhado em Betadine, e jurei a mim mesma nunca mais ir a uma noite de fados.